CAMPO DOS GUAICURUS

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

NÃO GOSTO DE "MANOEL DE BARROS"







REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:

levibronze.blogspot.com

commons.wikimedia.org

culturamix.com

comunicaçãochapabranca.com.br

Adejo, sou superficial, sou apenas eu mesmo, com extremas dificuldades. Nem que fosse meu desejo mais profundo, poderia aceitar verdadeiramente nominativos como "intelectual", "artista", "crítico". Sou rasim. Posso, sim, aceitar "homem das letras", "poeta", mas porque tais termos são extremamente tolerantes quanto às portas de entrada. Se "Homem das Letras" comporta tanto Sartre, Bloom, Shakespeare, quanto meu amigo Zé, que embrenha-se em seus papéis vezes ou outras na semana, com muito pouco entendimento literato ou de crítica poética, e sai com um "Batatinha quando nasce eu penso em ensopado"... E também o termo "poeta" comporta em seus vastos átrios tanto Rimbaud, quanto seu admirador, Vinícius, o próprio Manoel de Barros, quanto o mesmo "Zé" das batatinhas. A democracia é eternamente frouxa? A liberdade uma eterna ilusão? De repente tudo vira perseguição, interrogatório, algemas, 1984, Maccarthysmo? Espero que não, espero conseguir dizer, pouco antes de uma morte por velhice, tipo a de Eliphas, "tive muita sorte, vivi em uma época e lugar em que pude ter um mínimo de liberdade em minhas expressões, fossem bobas, tolas, errôneas como fossem, ao menos sobre os rodapés da arte; e por isso posso dizer que morro como homem". Não tenho cacife para avaliar "tecnicamente", aliás, nem mesmo poeticamente, propriamente dito, um poeta laureado por tanta gente, desde que, segundo o genial professor Contini, de Linguística, na UFMS, foi Manoel de Barros "descoberto" por Cássia Kiss e depois, pouco a pouco consagrado, sendo apontado hoje como talvez o "maior poeta brasileiro vivo". Mas, com meus parcos e ocasionais voos sobre coisas escritas, e histórias sobre os sujeitos que escrevem, não gostei de sua poesia. Não posso dizer "não li e não gostei", frase que ouvi na primeira vez em sala de aula, da boca de uma genial professora, aliás, especialista em Barros, parece-me; frase gostosamente (por ela, e compartilhada por muitos, e francamente por mim) atribuida a um professor (parece-me) paulista que assim comentou a 'obra' de Paulo Coelho. Li algumas coisas de Manoel de Barros, e para o que gosto em poesia, achei fraquim... Claro, deve ser um monstruoso engano de minha parte. Achei que o barulho é maior que a produção. E foi difícil para mim entender afirmações dele como por exemplo de que a promiscuidade de sua poesia encontra paralelo em Rimbaud. E mais difícil foi para mim entender porque ele, pessoalmente, (considerando verdadeira a afirmação de quem o atendeu, que o conhece, o dono do 'sebo' em questão) vendeu "Lautreamont", novinho, com íntegra dedicatória do escritor de Voltas, autoridade em Surrealismo. Penso aqui na análise de Jack Miles sobre Jó, quando põe Deus a calar-se na Antiga Bíblia, de tal forma que jamais volta a falar com os homens na antiga tradição, antes que o Cristianismo "engolisse" o Judaísmo com Deus e Tudo, para o mundo. "Senhor..." diz Jó "...por que fizeste isto comigo?", "Para provar que és o grande servo fiel, exemplar, digno..." "Para quem, Senhor"? "Para Aquele que duvidou e desafiou"... "Para que, senhor?". Sabe, os grandes tem atitudes estranhas... E, frente às grandes golfadas de fama, que falsamente podem vestir-se de glória, tudo pode ser "alterado". A questão aqui não é a grandeza de Manoel de Barros, isso é objetivamente incontestável, Millor, gosta dele, professores poderosos da área literata formal gostam dele, Cássia Kiss gosta dele, a TV gosta dele, já vi um programa que dá um porre de Barros mesmo ao mais apaixonado de seus "seguidores". "O maior poeta vivo do Brasil", já ouvi muitas vezes. E quem sou eu para discutir a grandeza objetiva de Manoel de Barros? Ninguém, sou quase fumaça, minha opinião não resiste a qualquer bom vento. Por isso considerarei uma maravilha alguém com poder real de persuassão, sinceramente me fazer apagar essa blogada e jamais escrever neste mesmo tom sobre o poderoso poeta. O que está aqui em jogo com minha blogada que certamente será injustamente chamada de "estratégia ignóbil para chamar a atenção", (coisa irônica num bloguezinho esopo-ratônico -viram só? crio termos- que não fossem alguns poderosos amigos e desconhecidos de fato ilustres que aqui vem, seria um grito no deserto) é o direito de não ser meu gosto subjugado por decreto. Se eu vier a gostar de Manoel de Barros e sua Poesia, como gosto das coisas de literatura, onde haja ao menos respingos do sujeito na obra, no que se refere ao humanismo... Aqui concordo em parte com Sartre sobre o poderoso Flaubert... Não será porque uma partícula dos cofres públicos me laureou um projeto, não será porque algum trabalho acadêmico me abriu portas com o nome do sujeito e com sua obra, não será por amor regional barato, não será para discutir por discutir... Gosto mais de prosa poética, li pouquíssimo de poesia, e não consigo me lembrar de uma sequer, por inteiro... Mas li poesias, sim... o suficiente para entender que nos quebram a cabeça, nos confiam pouco, pouquíssimo para dizermos "li e gostei", naquele momento... Como um gozo sexual que por mais que queiramos recordar, virá brumado, mesmo que deliciosa lembrança... Não enxergo aqui Manoel de Barros como "o bom velhinho", e sinceramente, sem o conhecer bem, creio que ele recusaria enojado algo do tipo, pois é a mim natural a todos os homens algo assim. O enxergo aqui como um sujeito que se não amasse as Letras, porque as tomaria tão a fundo... Então o "não gosto" do título, já começa a perder força... Ele gosta (segundo o Márcio, amigo meu, que teve acesso a informações) de Chaves... O que é uma grande coisa, uma amostra de como a genialiade é ligada ao simples. E muitas pessoas maravilhosas que conheço, gostam de Manoel e sua poesia, de verdade e não para servir a pequenas ou grandes convenções e salões de chá das cinco ou das quatro e meia. Contini, o poderoso, esse é mesmo, poderoso... um Fíleas Fogg superior ao próprio Fogg, e caso não existissem celulares, um Kant, para que tivéssemos noção das horas precisas, com sua fria (melhor dos sentidos) análise, certo dia respondeu "ele tem dois excelentes livros poéticos". E esse é para mim o melhor dos avais sobre Manoel. Mas, ainda não consegui perdoá-lo sobre a venda inexplicável de Ducasse com dedicatória autoral, e sobre a "promiscuidade rimbaudiana". E ainda não consigo ver sua poesia diferente de um surrealismo regional nascido da independência poética que pode libertar até mesmo um ser patronal e formal na geração de filhos chamados livros... Da pimenta a pimenteira... Sei que poderei ter os comuns aborrecimentos que se tem ao afirmar sinceramente um gosto contra o "senso comum" (talvez censores comuns, às vezes), mas há tempos quero blogar isso. Nem que algum poder (espero que literário e biografal) me faça varrer essa blogada para sempre... Não muito distante de nascida. E sim, é provável que eu mude de idéia, mudamos de idéia, é nossa condição, ser mutantes, mutáveis, evoluir, e principalmente para sujeitos vazios de sedimentos verdadeiramente acadêmicos ou formais como eu . Mas, sobre os patifes, abutres de corredores, fã de bordados poéticos, fãs sem ter o que explicar, oportunistas baratinhos, esses serão sempre os mesmos, desde Homero... "Amor, neste poema não existe o tempo, todo o curso do universo nele se dá de uma só vez" (Joan Brossa, poeta catalão, poesia publicada por Elio Gaspari em A Folha de São Paulo). Quem poderá explicar isso? Referências literárias utilizadas aqui: "DEUS UMA BIOGRAFIA", Jack Milles, Cia das Letras; QUE É LITERATURA, Jean Paul Sartre, Ática; A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS, Júlio Verne, Ática novamente.

4 comentários:

Valdir DM disse...

Dante:

Em primeiro lugar, quero tranquilizá-lo: não estamos no Irã (ou estamos???!!! - espero que não), e assim, é livre, no país, a manifestação do pensamento, desde que não denigra a imagem de outrem ou não ofenda a moral e os bons costumes. Mais livre ainda é a manifestação de sentimentos, como o de "não gostar" de uma poética.

Havia escrito algo sobre o simpático velhinho (e execrável poeta) Manoel de Barros, mas acabei vendo o texto ser deletado (forças ocultas? teoria da conspiração?) sumariamente. Tive preguiça de repensar ou correr atrás dos pensamentos perdidos, e o assunto ia ser encerrado. Mas recebi justamente hoje um e-mail de um poeta do Agreste baiano, José Erenilson, com um pequeno poema e uma torrente de elogios a MB. O poema me surpreendeu e eu respondi ao e-mail com o seguinte texto:

José Erenilson:

Li 21 livros de Manoel de Barros (incluídos 4 "para crianças"), e em nenhum deles vi versos tão bons quanto os seus. Tem rima (coisa rara hoje em dia), mas tem também (coisa ainda mais rara) sentido e pertinência. E ainda um Português corretíssimo: fiquei encantado com a dicotomia (não sei se é o termo próprio) singular-plural ("silente como felinos"), pela qual você evita o surrado padrão singular-singular ("silente como um felino").

A poética de MB não retrata, ao meu ver, uma alma de menino, mas sim, a alma atormentada de um adulto que sofreu uma infância infeliz. Edson Soares Martins tem uma tese interessante versando sobre o assunto (http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/letras/article/view/18337/11921); o blog Timblindim também fala do assunto na postagem "Fios que o Prendem à Infância". Nos dois primeiros livros MB revela um pouco do seu mundo mental; nos outros 19, volta e re-volta à sua infância, mas empreendendo recuos, disfarces e despistes cada vez mais elaborados. O que lhe permitiu esse caminho foi a transposição, com casca e tudo, do surrealismo que ele viu em Nova York, nos anos 40, das artes plásticas (pátria de eleição desse movimento) para a Poesia. O resultado é uma miríade de versos de pé-quebrado, onde palavras que lembram o tema Pantanal voam e pousam ao Deus-dará, numa confusão infernal. O método de aglutinação não é poético (e muito menos infantil), mas sim mecânico, como que obedecendo a um programinha em linguagem Basic rodando num editor de textos. Parafraseando o próprio MB, o poeta logo se tornou uma "máquina de menstruar em pardais" e em outros seres do Pantanal.

Fantasia é coisa de menino; surrealismo é coisa de adulto. MB parece ser fruto de uma Montagem de Reputação. Alguém, com contatos poderosos, acionou esses contatos, que por sua vez acionaram figuras de escol da cultura brasileira (Antonio Houaiss, Millôr Fernandes, o agora execrável Arnaldo Jabor) pedindo-lhes "uma força" para o poeta desconhecido, embora "extremamente criativo". Millôr escreveu algo, ou fez algumas referências sobre o poeta, e parece que isto repercutiu muito, na época (década de 80). Interessante que esse fato é citado ene vezes, em ene lugares, mas sempre com o mesmo texto, como se fosse press-release; mas você não acha as referências originais. Parece que o Millôr fez "aquilo" contra a vontade. Arnaldo Jabor também escreveu algo sobre MB, mas com explícita má vontade. Leia o artigo "Escrevo hoje um artigo sobre quase nada" (disponível em vários saites), que bem poderia ter o título de "A Lesma".

Enfim, José Erenilson, se fosse você eu leria MB para aprender o que não devo fazer em Poesia. Surrealismo não é linguagem infantil. E uma pessoa pode falar de coisas lindas (como mulheres e beija-flores) da maneira mais burra e execrável...

Saudações.

Valdir

Dante Sempiterno - ( dantesempiterno@hotmail.com ) disse...

Confesso que nem mesmo pude sorver e processar todo o seu comentário que logo de saída me deu grande satisfação, e honrou de maneira soberba esse espaço. Entrei rapidamente e não pude fazer uma boa leitura. "Guardei" seu comentário para com um café, mais tarde, como merece, ser contemplado mais atentamente. Mas, posso dizer que esse é o passo que eu gostaria de ver, por aqui. Não poderia ser melhor. Muito obrigado, é grande a honra por receber suas visitas, que espero que sejam muitas, e agradeço a sorte, também, de teres voltado atrás e realizado por segunda vez um texto crítico sobre MB, que pelo bem nas leituras poéticas e finalidades nelas presentes, não pode ser blindado, simplesmente. Seria um grande desserviço ao próprio "estado" que o protege. Abraços!

Valdir DM disse...

Realmente, Dante, essa blindagem incomoda. Acho que Cultura é interação, de preferência de todos com todos (um pouco difícil nesta nossa aldeia global, mas pode-se tentar).

Noto que Guimarães Rosa, escritor que foi convidado por MB a visitar o Pantanal (e de fato visitou, mas nem porisso passou a fazer apologia do cuiabano) nunca precisou de blindagem nem de apresentações. Descobri por mim mesmo, em priscas eras, lendo Sagarana, como é grande esse mineiro e como é feiticeira a sua linguagem (normal, mas lindamente entremeada por modismos sertanejos).

Mas talvez eu seja também suspeito por não babar ovo para a Poesia. Isto pode vir, reconheço, de uma deficiência cultural na matéria.

A citada montagem de reputação, coisa cada vez mais comum, principalmente na área televisiva (regional, como denuncia o Nilson Pereira, e também nacional), é apenas uma hipótese de trabalho. Não vai ser difícil para mim voltar atrás nesse quesito. Mas quanto ao mérito, Gerardo Mello Mourão, poeta cearense, fez descoberta similar à minha: ele chama a suposta criatividade de MB de repetitiva "aplicação de fórmula".

Abaixo, palavras "formigadas na galha do cajueiro" pelo José Erenilson:

(...) Quem dera ser do barro
que nem o Manoel
nas asas de um pássaro
escorregar do céu
enveredar pelos matos
silente como felinos
mergulhar nos meus regatos
vadio como alevinos
repescar pro meu regaço
minha alma de menino...

Dante Sempiterno - ( dantesempiterno@hotmail.com ) disse...

Devia ter lido Guimarães completo há muito tempo; agora, com tuas visitas, que espero ver sempre multiplicadas,passo a um querer que deve, em breve, efetivar-se. Usarei, inclusive, seu comentário para alavancar alguns "trabalhos" de motivação em direção à mesma leitura, com meu filho e alguns amigos cuja "timidez" deve diminuir, nesse sentido. Noto que tens grande força intelectiva e literária, aí contidos aspectos culturais, psicológicos, linguísticos, puramente, e mais. Então, felicito minha própria sorte e a dos que aqui vêm e leem, pois, deveras, isso enriquecerá o blog e mais. Abraço!