CAMPO DOS GUAICURUS

CAMPO DOS GUAICURUS

terça-feira, 12 de abril de 2011

ABUTRES COMEDORES DE RESTOS DE LUZ










REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:

jornadadegrazibianucci.blogspot.com
ceciliafurquim.blogspot.com
kafekultura.blogspot.com
digestivocultural.com
skoob.com.br
desenvolvimentoemquestão.wordpress.com
bibliotecatransmissivel.blogspot.com

O ego é algo complicado de se administrar. No início, o homem, sujeito nômade, girava em torno da palavra "comida": comer para se manter, 'comer' para perpetuar-se, e principalmente não virar comida. Evoluiu, e o sacerdócio e monarcado inventaram medalhas, penachos, cores distintas, e o que é principal, poderes distintos, em nome de distinta interpretação de coisas e textos; às vezes para servir genuinamente à coletividade, e, infelizmente isso parece ser eterno na natureza do homem, às vezes muitas, para servir a si e os 'seus'. Vieram a 'G'lória e a 'f'ama. Glória a tem Jesus Homem (aquém ou além e Uno em Deus Luz, ele também o próprio, pois realizou), Cézar (Brutus e Cássio na carona -fizeram- discute-se, se merda ou coisa certa, mas fizeram treco grande, abrindo caminho para Otávio Augusto), Pelé, Saramago, Machado, Ayrton Senna, tantos... Fama: Xuxa (exemplo clássico), X e Y na 'música' (certos nomes são impronunciáveis), jogadores mercenários, sem paixão e putz, a lista de fama é mesmo grandona... Enfim, é meio complicado isso de separar Glória e fama, mas se quisermos ser simplistas dizemos que fama é uma mistura de política de oportunismo (o que com quem) e inteligência tipo 'esperteza' (não somente mau sentido). Esclareça-se, a fama não torna maus os famosos. O que se quer aqui é explicar que Glória é algo maior, resultado de maiores suores, muito maior coragem e trabalho; "sangue, suor e lágrimas" de verdade. A Xuxa tem seu papel positivo na sociedade. Não a estou atacando, ok? Embora, de fato não veja ali talento que valha glória, só isso. Ela foi um símbolo sexual e apresentadora destacada de programas infantis e adolescentes, e parece querer manter-se no último. Ela é famosíssima, e será, não sei até quando. E o ego? Aí está o "X". Nós somos abutres de ego, em maior ou menor intensidade, na sociedade moderna. Precisamos de restos dos famosos, dos gloriosos, qualquer coisa para nos alimentar, de alguma forma. Aí você tem que descobrir que espécie de abutre quer ser, de "Caras" ou "Crítica Artística X". Prefiro o último tipo. Em parte nasci inclinado para ser tal espécie de abutre, e em parte as circunstâncias confirmaram ser o destino. COMO TENTAR SER UM BOM ABUTRE? Putz, pode ter coisa mais fácil? É só seguir os predadores, quando queremos 'sangue', nada de fotossínteses, certo? Temos nosso lado de comedor de alface (alguns outras coisas mais chiques, árvorezinhas verdes e talões gomados, exóticos), mas aqui está em questão nosso lado vampiresco, sangue para continuar... Descobri tarde demais essa condição da natureza, então não tenho muito tempo, não tenho tempo a perder. Escolhi logo Harold Bloom, acho-o o maior predador literário da "parada". Harold Bloom é tão poderoso que pode alimentar não apenas um velho e insignificante abutre como eu, mas bilhões de abutres... Creio que Harold Bloom está para nós abutres, como esteve José interpretador de sonhos, administrador no Egito, e reto sujeito quanto às tentações de esposas alheias, para a antiga nação patriarca, deu jeito de garantir alimento para nós todos... Amo sinceramente Harold Bloom, ele deixa para mim apenas um trabalho, verificar solito as coisas regionais e brasileiras, pois não consegui encontrar um Bloom brasileiro. Então, em nossa condição eterna de abutre literário de baixo coturno (expressão saramagueana -o baixo coturno apenas-) vamos 'à luta".

Quando Deus respondeu quem era, disse: "Eu Sou!". E pronto, acabada a conversa não fiada. Pois vamos logo esclarecer aqui a má utilização desse termo "confersa fiada". Se é fiada, tem valor, oras, e não o contrário.

Em "O Cavaleiro Inexistente" de Italo Calvino, o primeiro responde "Eu sou". Mas não comparemos os dois "eu sous". Simplesmente porque, de repente, Calvino, com sua sutileza sem igual, explicou que seria "Eu sou", até ele falar da voz metálica que vinha do elmo fechado, não como uma garganta, mas a própria chama da armadura a vibrar". Pois depois, mesmo sendo invisível e misterioso, o personagem não vai a tanto, tentar imitar Deus, e conclui: "Agilulfo Erno Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez (estranho esse "Fez", mas parece ser nome mesmo do infeliz -Ei ! Esse infeliz aí, é um termo não simples, ok?). Harold Bloom, ao falar de Calvino, começa logo por um texto do poderoso escritor, um outro livro seu, dizem alguns, sua 'obra-prima', "Cidades Invisíveis":

E o Grande Khan pôs-se a folhear o atlas, examinando os mapas das cidades que nos ameaçam em pesadelos e maldições: Enoque, Babilônia, Yahoolândia, Butua, Admirável Mundo Novo.

Ele disse: - É tudo inútil, se a última parada for, inevitavelmente, a cidade infernal, e se é para lá que, em círculos cada vez menores, a corrente nos arrasta.


E Polo disse: - O inferno dos vivos é aqui, o inferno em que vivemos todos os dias, o inferno que, juntos, formamos, há duas maneiras de escapar de tal sofrimento. A primeira é fácil para muitos: aceitar o inferno e se tornar parte dele, com tamanha intensidade que já não se consiga sequer vê-lo. A segunda é arriscada e requer vigilância e preocupação constantes: aprender a identificar quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-los, e abrir-lhes espaço (grifo nosso).

AGORA PALAVRAS DE BLOOM: "Essa bela injunção conclui o livro As cidades invisíveis, Italo Calvino, constituindo o legado humano da genialidade do escritor no que concerne à fantasia.

AGORA AS MINHAS PALAVRAS: Eu sou... o pequeno (hierarquicamente, pois estou grande e gordo, acho que abutres e corvos tem que explicar bem as coisas) e velho abutre, nascido nem sei onde, registrado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, filho legítimo do mistério e do acaso a quem dão tantos nomes... Sou um dos pobres e bilhões de abutres que precisam se alimentar do sangue chamado luz, luz literária quando pintura, música, cinema, poesia, pois estão tudo, afinal, na literatura, seja nas pedras, no couro, na tela, no ouro, onde for, as letras são letras, e elas podem dizer "Nós somos!".

REFERÊNCIAS LITERÁRIAS UTILIZADAS. "GÊNIO", de Harold Bloom, da Editora Objetiva; As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino e O Cavaleiro Inexistente, ambos da Companhia das Letras. Observação: os títulos de Calvino podem nos levar, abutres e corvos, às vezes a dizer erradamente "Cidades Inexistentes" (mais raro) e "O Cavaleiro Invisível" (mais comum, compreensivelmente).

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