CAMPO DOS GUAICURUS

CAMPO DOS GUAICURUS

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O OUTONO EM CAMPO GRANDE




























REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:

manecas-azul.blogspot.com
fotoseimagens.etc.br
blog.meiapalavra.com.br
inovaçãotecnologica.com.br
as9curasparaseutedio.blogspot.com

Perto da minha casa, uma quadra daqui, tem uma praça. É um pequeno delta verde. Neste outono de 2011, seus bancos precisam de reparos e me pergunto, com o demônio soprando num ouvido o anjo em outro, se não é melhor assim, ou se seria melhor serem reparados e virem mais pessoas ali sentarem. Quem frequenta o delta? Ele é o abandono esperando que a corrupção se instale e se perceba pela incontamilhionésima vez que a omissão é que cria o mal... "Mas, mas, mas... eles 'tomaram' a praça...". Tomaram o que? Não se toma aquilo que não tem dono, aquilo que não recebe carinho. A tensão é a constante do ser humano, os fodas Cohen escreveram, de alguém ou deles mesmos: "onde os fracos não tem vez". E ser forte, infelizmente e felizmente, é uma obrigação e não uma opção para o ser humano. E ser forte é muito mais que alimentar o abandono e a insegurança com massas e se transformar no "temei-me", "babai". E, claro, não sou que vai aqui se tornar anjo-auto-ajuda e receituar, com tapinhas nas costas, "como ser forte"... Mas isso é um blog, prosa consigo mesmo e com outros que são a nós mesmos, alimentando-nos nessa desconfiança de que somos, sim, meio deuses e um pouquinho mais que outros que escolhem não exigir da mente deliciosas reflexões inúteis. O outono em Campo Grande-MS (sim, tem outros Campo Grandes) é o mesmíssimo da China, da Califórnia, da Argentina (que após ontem, 'não é possível', passam a saber que time é o Fluminense)... Com uma diferença... Somente no outono de Campo-Grande, MS, tem a formiga-gladiadora amarela e o pequeno-deus-interventor "yo". Homero explica: a formiga gladiadora vinha de uma empreita não muito gloriosa, mas justificável; com outras, buscavam comida, e o mal convidado 'Caos', como sempre sem nos explicar bem, põe o pequeno exército a ser pisoteado por uns titãs alheios ao resto, ligados em 'pega-esse-pego-aquele" ali do Delta do Monte Carlo, que logo partem para correrias e gritarejos, e fica a amarela formiga-herói, com um muito menor grupo sobrevivente, às tontas, indo a seguir pelos corredores do 'não sei onde isso vai dar'. Darei o nome de Máximus Yellow, pois ela mereceu ganhar um 'id'. Após batalhas com os negros pigmeus, em muito maior volume, engalfinhadas na proporção 1/20, em média, foram heróica e batalharmente sucumbindo... De longe outros titãs alheiavam-se com bolas, correrias, fumaças tipo a e b, cada um na sua... Nem imaginavam que ali, sob meus olhos acontecia Tróia, com Ulisses, Menelau, o grande Heitor... Mas Máximus Yellow mostrou-se um grande General, um rei de batalhas, superou até mesmo as melhores guerreiras que lhe parceiraram... Era agora a única sobrevivente e sua tez amarela estava ficando coberta de um vivo manto negro, eram várias anãs negras, ferozes, querendo a dourada carne... Como Zeus, intervi, é outono, tenho o poder, abaixo e com habilidade paciençosa, aos poucos, e sem matanças, retiro as pequenas inimigas de Máximus Yellow e o libero para a vida... Recoloco-o onde poderá voltar heróico para casa... talvez o matem, pois terá o cheiro dos inimigos, e sendo os numerosos cavernosos avessos a mudanças e presença real de heróis, como na antiga caverna, dirão, quem sabe, "história... estás com más intenções... vamos anulá-lo...". Mas morrerá como herói, está aqui, eternizado no eterno blog, eterno Google, enquando viniciamente resistir a eternidade... Só no outono de Campo Grande - MS, no delta verde do Monte Carlo, existiu a formiga Máximus Yellow... Prefiro pensar que ela não volte ao formigueiro, pois sabe o que lhe espera, que ache uma formiga amarela fêmea, de cabelos chanel, misteriosa e fiel, e parta como partiu Harrison Ford com Sean Young, Blade Runner... Ou então, sim, fique em jejum sobre uma pequena pedra do Delta Verde, até que venha sua grande noite, enquanto contempla todas as batalhas que venceu, todas as derrotas e vitórias, tudo que há em seu mundo dourado de formiga amarela... Ao contemplar não se assuste em de repente perceber-se homem sob árvore, contemplativo... Menos que uma formiga herói, um homem alimentando-se de ócio, dos milhares de pontos reflexivos, como esse, o Delta do Monte Carlo, em Campo Grande - MS, onde existiu essa figura sob meus olhos... Mas todos dela sabemos agora... O Delta, as pequenas árvores pata-de-gado, os ingazeiros presos, ao fundo, após a cerca silenciosa, os bancos deteriorados, as mesmas crianças da China e de Cuba e da Finlândia e dos amarelos... e de Campo Grande, campo-grandenses. Pequeninas fumaças facilmente vencidas teimam contra o grande céu de vento azul... Talvez uma lágrima... quem pode chorar pelo destino de uma formiga amarela... Que delícia o ar, o outono é a última vida, a melhor delas, sabemos, como sabe o gravetinho de Pascal, o que passou, o que está por vir... O Delta Verde do Monte Carlo, Campo Grande - MS, seu outono... Quebraram o cano várias vezes, acabou a gratuidade da água, venderam, agora é privado, tantas vezes quebraram... Mas a grama está verde no Delta... Um pequeno Kallahari, insetos próximos do vazamento proibido de água que verdeja um cantinho do delta... vozes de crianças, grama, folhas e cascas secas, passos, gritos infantis de folguedos, tanta conversa, mas não sabem que um formiga amarela, Gladiator Yellow, fez a eternidade desse outono de 2011... Não pelo blog, não por mim que contei, mas porque existem formigas únicas, douradas, heróicas, que alguém vê, de alguma forma, ou Nietzsche amargamente venceria: "o universo não tem objetivo..." O outono em Campo Grande-MS, no Delta Verde de Monte Carlo... "Aqui lutou a heróica formiga amarela Máximus Yellow, única entre as únicas que bravamente tentaram a vida..." No outono do Delta Verde do Monte Carlo, o outono de Campo Grande - MS é único...

terça-feira, 12 de abril de 2011

ABUTRES COMEDORES DE RESTOS DE LUZ










REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:

jornadadegrazibianucci.blogspot.com
ceciliafurquim.blogspot.com
kafekultura.blogspot.com
digestivocultural.com
skoob.com.br
desenvolvimentoemquestão.wordpress.com
bibliotecatransmissivel.blogspot.com

O ego é algo complicado de se administrar. No início, o homem, sujeito nômade, girava em torno da palavra "comida": comer para se manter, 'comer' para perpetuar-se, e principalmente não virar comida. Evoluiu, e o sacerdócio e monarcado inventaram medalhas, penachos, cores distintas, e o que é principal, poderes distintos, em nome de distinta interpretação de coisas e textos; às vezes para servir genuinamente à coletividade, e, infelizmente isso parece ser eterno na natureza do homem, às vezes muitas, para servir a si e os 'seus'. Vieram a 'G'lória e a 'f'ama. Glória a tem Jesus Homem (aquém ou além e Uno em Deus Luz, ele também o próprio, pois realizou), Cézar (Brutus e Cássio na carona -fizeram- discute-se, se merda ou coisa certa, mas fizeram treco grande, abrindo caminho para Otávio Augusto), Pelé, Saramago, Machado, Ayrton Senna, tantos... Fama: Xuxa (exemplo clássico), X e Y na 'música' (certos nomes são impronunciáveis), jogadores mercenários, sem paixão e putz, a lista de fama é mesmo grandona... Enfim, é meio complicado isso de separar Glória e fama, mas se quisermos ser simplistas dizemos que fama é uma mistura de política de oportunismo (o que com quem) e inteligência tipo 'esperteza' (não somente mau sentido). Esclareça-se, a fama não torna maus os famosos. O que se quer aqui é explicar que Glória é algo maior, resultado de maiores suores, muito maior coragem e trabalho; "sangue, suor e lágrimas" de verdade. A Xuxa tem seu papel positivo na sociedade. Não a estou atacando, ok? Embora, de fato não veja ali talento que valha glória, só isso. Ela foi um símbolo sexual e apresentadora destacada de programas infantis e adolescentes, e parece querer manter-se no último. Ela é famosíssima, e será, não sei até quando. E o ego? Aí está o "X". Nós somos abutres de ego, em maior ou menor intensidade, na sociedade moderna. Precisamos de restos dos famosos, dos gloriosos, qualquer coisa para nos alimentar, de alguma forma. Aí você tem que descobrir que espécie de abutre quer ser, de "Caras" ou "Crítica Artística X". Prefiro o último tipo. Em parte nasci inclinado para ser tal espécie de abutre, e em parte as circunstâncias confirmaram ser o destino. COMO TENTAR SER UM BOM ABUTRE? Putz, pode ter coisa mais fácil? É só seguir os predadores, quando queremos 'sangue', nada de fotossínteses, certo? Temos nosso lado de comedor de alface (alguns outras coisas mais chiques, árvorezinhas verdes e talões gomados, exóticos), mas aqui está em questão nosso lado vampiresco, sangue para continuar... Descobri tarde demais essa condição da natureza, então não tenho muito tempo, não tenho tempo a perder. Escolhi logo Harold Bloom, acho-o o maior predador literário da "parada". Harold Bloom é tão poderoso que pode alimentar não apenas um velho e insignificante abutre como eu, mas bilhões de abutres... Creio que Harold Bloom está para nós abutres, como esteve José interpretador de sonhos, administrador no Egito, e reto sujeito quanto às tentações de esposas alheias, para a antiga nação patriarca, deu jeito de garantir alimento para nós todos... Amo sinceramente Harold Bloom, ele deixa para mim apenas um trabalho, verificar solito as coisas regionais e brasileiras, pois não consegui encontrar um Bloom brasileiro. Então, em nossa condição eterna de abutre literário de baixo coturno (expressão saramagueana -o baixo coturno apenas-) vamos 'à luta".

Quando Deus respondeu quem era, disse: "Eu Sou!". E pronto, acabada a conversa não fiada. Pois vamos logo esclarecer aqui a má utilização desse termo "confersa fiada". Se é fiada, tem valor, oras, e não o contrário.

Em "O Cavaleiro Inexistente" de Italo Calvino, o primeiro responde "Eu sou". Mas não comparemos os dois "eu sous". Simplesmente porque, de repente, Calvino, com sua sutileza sem igual, explicou que seria "Eu sou", até ele falar da voz metálica que vinha do elmo fechado, não como uma garganta, mas a própria chama da armadura a vibrar". Pois depois, mesmo sendo invisível e misterioso, o personagem não vai a tanto, tentar imitar Deus, e conclui: "Agilulfo Erno Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez (estranho esse "Fez", mas parece ser nome mesmo do infeliz -Ei ! Esse infeliz aí, é um termo não simples, ok?). Harold Bloom, ao falar de Calvino, começa logo por um texto do poderoso escritor, um outro livro seu, dizem alguns, sua 'obra-prima', "Cidades Invisíveis":

E o Grande Khan pôs-se a folhear o atlas, examinando os mapas das cidades que nos ameaçam em pesadelos e maldições: Enoque, Babilônia, Yahoolândia, Butua, Admirável Mundo Novo.

Ele disse: - É tudo inútil, se a última parada for, inevitavelmente, a cidade infernal, e se é para lá que, em círculos cada vez menores, a corrente nos arrasta.


E Polo disse: - O inferno dos vivos é aqui, o inferno em que vivemos todos os dias, o inferno que, juntos, formamos, há duas maneiras de escapar de tal sofrimento. A primeira é fácil para muitos: aceitar o inferno e se tornar parte dele, com tamanha intensidade que já não se consiga sequer vê-lo. A segunda é arriscada e requer vigilância e preocupação constantes: aprender a identificar quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-los, e abrir-lhes espaço (grifo nosso).

AGORA PALAVRAS DE BLOOM: "Essa bela injunção conclui o livro As cidades invisíveis, Italo Calvino, constituindo o legado humano da genialidade do escritor no que concerne à fantasia.

AGORA AS MINHAS PALAVRAS: Eu sou... o pequeno (hierarquicamente, pois estou grande e gordo, acho que abutres e corvos tem que explicar bem as coisas) e velho abutre, nascido nem sei onde, registrado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, filho legítimo do mistério e do acaso a quem dão tantos nomes... Sou um dos pobres e bilhões de abutres que precisam se alimentar do sangue chamado luz, luz literária quando pintura, música, cinema, poesia, pois estão tudo, afinal, na literatura, seja nas pedras, no couro, na tela, no ouro, onde for, as letras são letras, e elas podem dizer "Nós somos!".

REFERÊNCIAS LITERÁRIAS UTILIZADAS. "GÊNIO", de Harold Bloom, da Editora Objetiva; As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino e O Cavaleiro Inexistente, ambos da Companhia das Letras. Observação: os títulos de Calvino podem nos levar, abutres e corvos, às vezes a dizer erradamente "Cidades Inexistentes" (mais raro) e "O Cavaleiro Invisível" (mais comum, compreensivelmente).

quarta-feira, 6 de abril de 2011

NÃO GOSTO DE "MANOEL DE BARROS"







REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:

levibronze.blogspot.com

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culturamix.com

comunicaçãochapabranca.com.br

Adejo, sou superficial, sou apenas eu mesmo, com extremas dificuldades. Nem que fosse meu desejo mais profundo, poderia aceitar verdadeiramente nominativos como "intelectual", "artista", "crítico". Sou rasim. Posso, sim, aceitar "homem das letras", "poeta", mas porque tais termos são extremamente tolerantes quanto às portas de entrada. Se "Homem das Letras" comporta tanto Sartre, Bloom, Shakespeare, quanto meu amigo Zé, que embrenha-se em seus papéis vezes ou outras na semana, com muito pouco entendimento literato ou de crítica poética, e sai com um "Batatinha quando nasce eu penso em ensopado"... E também o termo "poeta" comporta em seus vastos átrios tanto Rimbaud, quanto seu admirador, Vinícius, o próprio Manoel de Barros, quanto o mesmo "Zé" das batatinhas. A democracia é eternamente frouxa? A liberdade uma eterna ilusão? De repente tudo vira perseguição, interrogatório, algemas, 1984, Maccarthysmo? Espero que não, espero conseguir dizer, pouco antes de uma morte por velhice, tipo a de Eliphas, "tive muita sorte, vivi em uma época e lugar em que pude ter um mínimo de liberdade em minhas expressões, fossem bobas, tolas, errôneas como fossem, ao menos sobre os rodapés da arte; e por isso posso dizer que morro como homem". Não tenho cacife para avaliar "tecnicamente", aliás, nem mesmo poeticamente, propriamente dito, um poeta laureado por tanta gente, desde que, segundo o genial professor Contini, de Linguística, na UFMS, foi Manoel de Barros "descoberto" por Cássia Kiss e depois, pouco a pouco consagrado, sendo apontado hoje como talvez o "maior poeta brasileiro vivo". Mas, com meus parcos e ocasionais voos sobre coisas escritas, e histórias sobre os sujeitos que escrevem, não gostei de sua poesia. Não posso dizer "não li e não gostei", frase que ouvi na primeira vez em sala de aula, da boca de uma genial professora, aliás, especialista em Barros, parece-me; frase gostosamente (por ela, e compartilhada por muitos, e francamente por mim) atribuida a um professor (parece-me) paulista que assim comentou a 'obra' de Paulo Coelho. Li algumas coisas de Manoel de Barros, e para o que gosto em poesia, achei fraquim... Claro, deve ser um monstruoso engano de minha parte. Achei que o barulho é maior que a produção. E foi difícil para mim entender afirmações dele como por exemplo de que a promiscuidade de sua poesia encontra paralelo em Rimbaud. E mais difícil foi para mim entender porque ele, pessoalmente, (considerando verdadeira a afirmação de quem o atendeu, que o conhece, o dono do 'sebo' em questão) vendeu "Lautreamont", novinho, com íntegra dedicatória do escritor de Voltas, autoridade em Surrealismo. Penso aqui na análise de Jack Miles sobre Jó, quando põe Deus a calar-se na Antiga Bíblia, de tal forma que jamais volta a falar com os homens na antiga tradição, antes que o Cristianismo "engolisse" o Judaísmo com Deus e Tudo, para o mundo. "Senhor..." diz Jó "...por que fizeste isto comigo?", "Para provar que és o grande servo fiel, exemplar, digno..." "Para quem, Senhor"? "Para Aquele que duvidou e desafiou"... "Para que, senhor?". Sabe, os grandes tem atitudes estranhas... E, frente às grandes golfadas de fama, que falsamente podem vestir-se de glória, tudo pode ser "alterado". A questão aqui não é a grandeza de Manoel de Barros, isso é objetivamente incontestável, Millor, gosta dele, professores poderosos da área literata formal gostam dele, Cássia Kiss gosta dele, a TV gosta dele, já vi um programa que dá um porre de Barros mesmo ao mais apaixonado de seus "seguidores". "O maior poeta vivo do Brasil", já ouvi muitas vezes. E quem sou eu para discutir a grandeza objetiva de Manoel de Barros? Ninguém, sou quase fumaça, minha opinião não resiste a qualquer bom vento. Por isso considerarei uma maravilha alguém com poder real de persuassão, sinceramente me fazer apagar essa blogada e jamais escrever neste mesmo tom sobre o poderoso poeta. O que está aqui em jogo com minha blogada que certamente será injustamente chamada de "estratégia ignóbil para chamar a atenção", (coisa irônica num bloguezinho esopo-ratônico -viram só? crio termos- que não fossem alguns poderosos amigos e desconhecidos de fato ilustres que aqui vem, seria um grito no deserto) é o direito de não ser meu gosto subjugado por decreto. Se eu vier a gostar de Manoel de Barros e sua Poesia, como gosto das coisas de literatura, onde haja ao menos respingos do sujeito na obra, no que se refere ao humanismo... Aqui concordo em parte com Sartre sobre o poderoso Flaubert... Não será porque uma partícula dos cofres públicos me laureou um projeto, não será porque algum trabalho acadêmico me abriu portas com o nome do sujeito e com sua obra, não será por amor regional barato, não será para discutir por discutir... Gosto mais de prosa poética, li pouquíssimo de poesia, e não consigo me lembrar de uma sequer, por inteiro... Mas li poesias, sim... o suficiente para entender que nos quebram a cabeça, nos confiam pouco, pouquíssimo para dizermos "li e gostei", naquele momento... Como um gozo sexual que por mais que queiramos recordar, virá brumado, mesmo que deliciosa lembrança... Não enxergo aqui Manoel de Barros como "o bom velhinho", e sinceramente, sem o conhecer bem, creio que ele recusaria enojado algo do tipo, pois é a mim natural a todos os homens algo assim. O enxergo aqui como um sujeito que se não amasse as Letras, porque as tomaria tão a fundo... Então o "não gosto" do título, já começa a perder força... Ele gosta (segundo o Márcio, amigo meu, que teve acesso a informações) de Chaves... O que é uma grande coisa, uma amostra de como a genialiade é ligada ao simples. E muitas pessoas maravilhosas que conheço, gostam de Manoel e sua poesia, de verdade e não para servir a pequenas ou grandes convenções e salões de chá das cinco ou das quatro e meia. Contini, o poderoso, esse é mesmo, poderoso... um Fíleas Fogg superior ao próprio Fogg, e caso não existissem celulares, um Kant, para que tivéssemos noção das horas precisas, com sua fria (melhor dos sentidos) análise, certo dia respondeu "ele tem dois excelentes livros poéticos". E esse é para mim o melhor dos avais sobre Manoel. Mas, ainda não consegui perdoá-lo sobre a venda inexplicável de Ducasse com dedicatória autoral, e sobre a "promiscuidade rimbaudiana". E ainda não consigo ver sua poesia diferente de um surrealismo regional nascido da independência poética que pode libertar até mesmo um ser patronal e formal na geração de filhos chamados livros... Da pimenta a pimenteira... Sei que poderei ter os comuns aborrecimentos que se tem ao afirmar sinceramente um gosto contra o "senso comum" (talvez censores comuns, às vezes), mas há tempos quero blogar isso. Nem que algum poder (espero que literário e biografal) me faça varrer essa blogada para sempre... Não muito distante de nascida. E sim, é provável que eu mude de idéia, mudamos de idéia, é nossa condição, ser mutantes, mutáveis, evoluir, e principalmente para sujeitos vazios de sedimentos verdadeiramente acadêmicos ou formais como eu . Mas, sobre os patifes, abutres de corredores, fã de bordados poéticos, fãs sem ter o que explicar, oportunistas baratinhos, esses serão sempre os mesmos, desde Homero... "Amor, neste poema não existe o tempo, todo o curso do universo nele se dá de uma só vez" (Joan Brossa, poeta catalão, poesia publicada por Elio Gaspari em A Folha de São Paulo). Quem poderá explicar isso? Referências literárias utilizadas aqui: "DEUS UMA BIOGRAFIA", Jack Milles, Cia das Letras; QUE É LITERATURA, Jean Paul Sartre, Ática; A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS, Júlio Verne, Ática novamente.