CAMPO DOS GUAICURUS

CAMPO DOS GUAICURUS

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A NATUREZA SEMPRE DARÁ RESPOSTA À OMISSÃO, MAS FELIZMENTE








REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:
mosaicos-cida.blogspot.com
docecomooachuva.blogspot.com
coisasdabrenda.blogspot.com
experienciadevidacomdeus.blogspot.com
viciodeamar.loveblog.com.br

DEUS é uma questão de fato espinhosa, sanguínea, bastante difícil; mas, sobretudo o maior problema existente na questão religiosa é separar a materialidade da espiritualidade. Não foram os próprios construtores da idéia chamada "alma", e da separação "corpo" e "alma" que propuseram uma distinção de naturezas, e a prioridade da última sobre o primeiro? Estou quase chegando a meio século de vida, e considerando meus infortúnios e fortunas pessoais (níquel não tenho um só sequer, vou logo avisando a interessados; quando me refiro à fortuna digo que sei ler Saramago e Suskind, por exemplo, e olhar vários minutos Dali ou Michelângelo, ou ser um dos poucos a entender o que de fato representou o raio chamado punk rock) tenho certeza absoluta de que ao menos tenho mais paz interior no tocante à questão. Enfrento idiotices diárias de gente de natureza mental simples que mostra na materialidade, no sucesso material, na prosperidade financeira uma resposta de Deus para as pessoas de fé. Isso é uma piada no mínimo grotesca e cruel. A picaretagem tem chegado a níveis extremados, baseada na mais antiga (e felizmente na literatura, maravilhosa) confusão entre os homens, a babel chamada "interpretação". O cinismo é um jogo especial no mundo religioso e livrar-se do aperto a que somos submetidos cada vez mais pelo crescimento da fuga simples da responsabilidade humana sobre si própria, em que cada vez mais ao invés de solucionarmos as coisas através de uma verdadeira união e desprendimento, dizemos "Deus vai ajudar". Bem, o Plebe Rude já falou genialmente disso em uma música, procurem, no Youtube deve ter. Então, o que é o passo inicial? Mostrar que a compaixão e não o estalo de níqueis e disputa de superpompas de falastrões é o que deve ser a base da humanidade enquanto sofre. E depois, se conseguirmos e der tempo, Deus poderá nos ser dionisíaco, poderemos ser todos hedonistas, logicamente sem a perfeição utópica que é outra cartada cínica que vem sendo aplicada a ciclos variados desde que o homem organizou-se em sociedade. Compaixão... Sempre conto, talvez até já tenha contado aqui, um lance real de minha infância miserável. Eu tinha 4 anos de idade, e aliás, surpreendo-me de lembrar com tanto rigor de detalhes (que aqui não poderei descrever todos) a passagem. Pois bem, tinha eu 4 anos e pouco, e tínhamos uma senhora de vizinha, creio que de nome Edith. Abençoada, santa em estender a mão e tentar salvar nossos constantes desesperos. Ela tinha uma filha, Nilza, com olhos castanhos e úmidos, já naquela tão verde idade usava um óculos de aros iguais ao do Roy Orbyson. Em uma tarde passada de morna, estávamos sozinhos em casa, meu irmão dormia no cubículo que chamávamos de casa, e há pouco escapara de uma crise de desidratação e eu era o frágil guardião de tudo por ali. Ouvi um ruido na grama vizinha à janela da "dona" Edith. A porta estava fechada, a janela deles aberta. Eu sabia que a Nilza estava na peça. Fui até o pequeno quadrado irregular de grama agulha bem verde; caiam cascas de uva. Não titubeei, em pouco já terminara todas e conforme caiam eu as levava goela de miserável abaixo. Então cessaram, e antes que eu me desse conta do que acontecia, dei de frente com a menina. Ela me olhava fixamente, com um pequeno cacho de uvas em metade, estava, em sua magreza natural, linda como um reflexo de sol suave entre castanheiras esparsas em um final de tarde em jardim europeu de bons cuidados... Lábios úmidos (eu tinha 4 anos e meio e percebia isso), tinha o rosto inclinado, e com a voz de anjo, vestida em blusa branca e saia xadrez (uniforme de escola do qual não se livrara) disse: "que está fazendo?". E eu, com a frieza e desconcerto controlado, natural às crianças miseráveis, respondi "comendo as cascas de uva". E ela não disse nada, estendeu a mão e ofereceu o restante do cachinho (talvez tenha dito um: "tome, coma"). Isso, somente, já vale o universo humano, o ato daquela menina, também pobre como nós, e ali, sozinha, sem ninguém a impulsioná-la no ato misericordioso; com 5 anos de idade, entendendo o que se passava. Então eu disse algo que faria com que eu chorasse muitas vezes no futuro, toda vez que tentasse contar a história, que em anos não tive coragem de contar, embora tenha começado a me perseguir em determinado instante da adolescência em que contamos histórias uns aos outros. Disse: "não... eu como as cascas mesmo, coma as uvas...". Ela segurou minha mão (sei, é difícil de acreditar, mas é verdade), pôs o cachinho de uvas pela metade, e se afastou. Aliás, deve ter se afastado, pois a partir dali tudo é uma bruma. Ela era filha de uma senhora umbandista. Mas tenho plena certeza que isso não importa, creio que poderia ser filha de ateus, de evangélicos, católicos, budistas ou qualquer outra... Ela teria feito o mesmo, tenho absoluta certeza. Aquela garota, fiquei sabendo há pouco tempo, é hoje uma mulher materialmente rica, e não tenho a mínima idéia sobre sua espiritualidade atual. Mas não acredito que seja rica porque Deus a compensou, pura e simplesmente. Embora certamente tenha a graça e luz divina em si, creio que deve ter administrado muito bem sua vida, ter controlado seus sentimentos, e deve ter feito as coisas certas nas horas certas. Ela não é omissa, e com certeza descobriu o que é compaixão com cinco anos de idade, ao passo que pessoas dadas a esquentar com suas bundas o banco de templos, têm muitas vezes muito mais que os cinco anos, muito mais que dez vez isso, às vezes, e acham que compaixão é tudo menos dar um cacho de uvas, sempre, sempre e sempre, e sempre. A natureza sempre dará resposta à omissão, e se o mundo ainda tenta ir adiante, sob fogo cerrado de materialistas selvagens e de cínicos disfarçados de benfeitores, é porque esta mesma natureza responde também às Nilzas do mundo. Curiosamente o vinho, as vinhas, tem relação com a vida, com a partilha, no universo cristão, com o sangue irmão... Muitas vezes, quando me sinto muito angustiado, sou libertado por lembrar aquela menina e suas vinhas, felizmente, não um jogo de cena, ela Era, aliás, espero, ela É.

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