CAMPO DOS GUAICURUS

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

RELACIONAMENTO COM A MORTE






REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:
orasbolas.wordpress.com
br.taringa.net
Ioronix.blogspot.com
bbc.co.uk

Entre as tantas coisas irritantes que temos que suportar, às vezes, em fãs de livrinhos auto-ajuda ou raso emprego da herança doutrinária cristã é que muitas vezes querem destruir direitos imperiosos no SER. Por exemplo, encontro extremas dificuldades em explicar para as pessoas que a tristeza, e não somente a minha, é salutar. É um encontro do homem com o que tem de mais puro em si, em outros e nos objetos importantes. É claro o desequilíbrio no mundo no usufruto da herança dos bens terrenos, vindos após os dinossauros terem sido deletados via meteoro ou outra estratégia esclarecida pela National. É claro que existe tanta crueldade no mundo que um milhão de Datenas não seria número suficiente de narradores comercialmente estupefatos para transmitir e redramatizar. Basta eu sair na minha varanda e já ouço injustiça, seja pela própria natureza, um gato que abocanha um filhote de gorrion (sob o ponto de vista da cadeia alimentar natural, ou o gorrion ou o gato, claro, a perspectiva é outra), ou seja pela "consciência torta de humanos". Mãe xingando uma filha de menos de seis anos, de "Sua biscate". Enfim, o mundo é triste, como um todo, e nem todas as cachoeiras lindas, as flores dançando com as abelhas e colibris, praias paradisíacas, vislumbrar fantásticas engenharias naturais ou humanas, e tantas belezas (observe-se, mais à mão de quem tem o dindim, e não venham contrariar isso dizendo rasamente 'está ao alcance de qualquer um a felicidade, a beleza, e outras bobagens simplistas'). A tristeza não é doença, é apenas um estado de espírito mais reflexivo e verdadeiro, a alegria sempre nos trairá, a tristeza, poucas vezes. Como diz Voltaire, a consciência não é má conselheira, não adula. Nós é que procedemos errado com a verdade que nos sopramos a nós mesmos... A tristeza pela indesviabilidade da morte é um fato. Claro, existem pessoas extremamente fortes e indiferentes, mas a maioria se abala, ou pelo medo de perder tudo, ou pela impotência perante essa fatal despedida. Me sinto feliz em perceber que lido com a morte como mais um dos eventos únicos que temos, claro, top de linha. Tem uma música da Ângela Maria que diz: "hoje, alguém pôs a rodar, um disco de Gardel no apartamento junto ao meu, que tristeza me deu..." É o início das reflexões de um personagem se aproximando da inexorável morte... E procede com a maravilha rilkiana perante o inevitável "eu celebro": "...Garçom, põe a cerveja sobre a mesa, Bandoneon, toque de novo que Teresa esta noite vai ser minha e vai dançar para eu sonhar...". Sonhos no início da vida, sonhos no final dela, esta é proximidade à alma. Tudo, um entrevero de subjetividades... Mas, pode ter algo mais lindo, mais poético sobre a morte que esse grito musical de Ângela Maria? (há empates; é um momento poético lindo e desconcertante) - "A luz do cabaré já se apagou em mim, o tango na vitrola também chegou ao fim, parece me dizer que a noite envelheceu, que é hora de lembrar, e de chorar...". A memória é sumprema; o futuro é ou armadilha quando mal; esperança criadora quando bem... Às vezes concordo que sou poeta, com alguns amigos, pois quando essa música me chamou a atenção, eu tinha 19 anos e era um adolescente jogador de voleibol, já cinéfilo, namorado de andar de mãos dadas, enfim, cheio de vida... É, a poesia talvez nos escolha, apesar que todos somos a ela irremediavelmente ligados... todo homem é poeta, é um destino inescapável... Mas alguns sabem o valor da tristeza... Sorte... :o).

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