CAMPO DOS GUAICURUS

CAMPO DOS GUAICURUS

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A MAIOR E MAIS GRAVE FERIDA DO MUNDO


(clique na foto para ler)



(clique na foto para ver melhor essa mãe "moderna" e "despojada")
(clique na foto para ler)

FONTE DAS IMAGENS
myspace.com (STUDIO 89)
holdonvideo.com (Blink 182)
e-mail da Rocío (o restante das fotos).

Eu não tenho dúvida alguma sobre quais são as maiores dores do mundo. As físicas, são aquelas provocadas por alguns tipos de câncer ou hediondo torturador que acha que o Inferno é piada. As psicológicas e espirituais, aquelas vindas da perda de um filho. Sobre as dores físicas, aqui não tratarei. Montaigne, logo na abertura de seu "Pensamentos" (cuja obra Bloom diz que se passar uma lâmina, sangra) se refere à dor sobre o sofrimento ou morte de filhos. Conta: "Diz-nos a história que Psametico, rei do Egito vencido por Cambises, rei da Pérsia, vendo passar a filha, como ele próprio cativa, e que ia buscar água vestida de serva, permaneceu mudo, olhos voltados para o chão, enquanto choravam todos os seus amigos. Vendo logo depois o filho, que conduziam para a morte, conservou a mesma atitude. No entanto, diante de um criado que levavam à tortura, juntamente com outros prisioneiros, pôs-se a golpear a cabeça demonstrando extrema aflição. Cambises, perplexo, perguntou ao rei derrotado por que motivo ele, que tão pouco se mostrara perturbado com a infelicidade da filha e do filho, tanto se afetara ante a de um amigo, recebeu esta resposta 'É que só esta última tristeza é suscetível de se exprimir por lágrimas; a dor sofrida nos dois primeiros casos está além de qualquer expressão'" (MONTAIGNE, no livro "Pensamentos" da Abril Cultural, 1972). Vi o choro de Cissa Guimarães, que por ser uma pessoa pública representa milhares de outras mães; vi uma mãe "secar", em uma busca obstinada por justiça sobre o caso do filho, espancado e morto por uma gangue brasiliense, vi mães anônimas chorarem aquele choro que emparelha em momentos com o uivo dos lobos e do qual verte a saliva mais amarga do mundo e dos tempos, pela notícia da morte dos filhos, e outras em um choro inexpressivo, não menos dolorido. Quando Cristo morre, em Ben Hur, Deus chora, e suas lágrimas curam as leprosas irmãs de Ben Hur... "Quero justiça!", dizem as mães sob a manobra dramática dos programas espertalhões ou mesmo de um sincero jornalismo. O que é justiça? Antes de tudo é diminuir a principal ferida do mundo, esta que não acaba, que resulta de uma irresponsabilidade e ignorância cada vez maior, e que é ligada a todas outras questões mundanas ou espirituais: não sabermos o significado da palavra "filho", e de todas as responsabilidades implicadas neste termo, termo humano, que faz com que pese ainda muito mais a obrigação de refletir e agir, nesta terra cada vez mais inclinada a pensar e agir pouco sobre as sutilezas que possibilitam o mais alto grau de nobreza à palavra "humano". Mary Shelley criou Frankstein; o monstro, e em determinada parte da obra, em que choca seu criador ao assassinar uma criança, responde ao "Por que???": "Vocês não me ensinaram a amar...". Do universo atual, duas músicas irmãs, uma do Blink 182 e outra da banda Stúdio 89 falam sobre esta equação tão difícil, mas que não pode jamais ser abandonada. De certa maneira as duas falam sobre a indiferença mater-paterna; a primeira traz "fiquem juntos pelas crianças" (ao que "ficar junto" entendo que não seja obrigatoriamente aturar um ao outro (casal) presencialmente, ou seja, separar-se não significa deixar de ficar junto, é outra coisa), a segunda fala "eu preciso de um tempo para errar"; e é sobre os conflitos dos adolescentes e do mundo em que devemos enfrentar toda a preguiça ou indisposição de outro tipo, e nos aliarmos verdadeiramente aos quereres, sonhos e pesadelos de nossos filhos. No youtube tem a Studio 89 e tem o Blink 182... Amar os filhos; ficar juntos, compartilhar erros e acertos infantis e adolescentes, focar, amar... E a ferida diminui, é preciso de um tempo, em todos os tempos, é preciso ficar juntos, em muitos tempos...

3 comentários:

Sol Stabile disse...

Meu filósofo,
Enquanto educadora, convivo com crianças e adolescentes de diversas origens...
Infelizmente posso dizer que a frase de Frankstein resume o que se passa com muitos deles: "Vocês não me ensinaram a amar..."

Bjo grande amigo...

E continue provocando reflexões...

m.barbosamoraes;psicopedagoga;Unicastelo Eduardesstolfe;dr em literatura;Unimara disse...

Caro poeta,continuamos lendo suas obras.Eu psicopedagoga,juntamemte com o professor de literatura,encontramos neste texto,um ponto de partida para refletirmos sobre conflitos e dilemas que compartilhamos com nossos educandos,suas familias,e o meio ao qual estao inseridos.Gostariamos que nos autorizasse a utiliza-lo em nossas reunioes reflexivas. Cumprimentamos pelo excelente nivel literario.

Dante Sempiterno - ( dantesempiterno@hotmail.com ) disse...

Marilei, a ti e seu amigo, não somente autorizo a utilização do referido ou qualquer outro texto, como também profundamente agradeço a atenção ao blog, e aponto que foram justamente a um dos pontos mais importantes na inquietude que me leva a escrever... Se não amarmos nossos próprios filhos, que poderemos dizer do que se trata o amor, e como iremos construir e reconstruir melhor um melhor mundo. Abraço, estou muito feliz com tuas visitas, abraço também no seu valioso colega, que também valoriza essas questões todas na educação :o) !