CAMPO DOS GUAICURUS

CAMPO DOS GUAICURUS

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O PODER DAS PALAVRAS - "...TEU SÚDITO, BARCLAY".

FONTE: www.sacred-destinations.com
FONTE: www.fflch.usp.br
FONTE: www.whitman.edu

FONTE: dannmanns-nyt-ramblings.blogspot.com

Os nossos ouvidos dividem-se, como nossos eus, parecem criar cada um dos vários, uma personalidade, com vontades e ausência delas próprias... Ouço, não ouço, ouço, não ouço, ouço, não ouço. Garfield sobre a mesa, Odie também... Você não sabe quem são? Bem, você está na internet... Confira uns quadrinhos e perceba que o cinema não foi feliz o suficiente com eles... Ou seja, o cinema, ao contrário do que em Véu Pintado (blogada lá abaixo), não fez satisfatória transferência de "magia"... Garfield é resultado de idéias muito boas, e de um humor não apenas acessível ou refinado; é um trabalho e tanto com a utilização do cinismo, egoísmo, gula e outros defeitos, sem a apelação presente em alguns desenhos modernos, de TV. Bem, eu dizia, ele sobre a mesa avista Odie na mesma prancha, na borda, olhando para o nada... Pleno de prazer do antegozo, o gato gordo direciona-se preparando o pé para um "vai-te à merda" pelas bundas do cão bobo, ao que é impedido por uma interferência de um Garfieldzinho azul, angelical, que aparece holografado acima e na lateral de sua cabeça dizendo "Nãão, Garfield, isso não é certo, ele é seu amigo, não faça isso. Além de tudo o John ficará furioso; e você pode feri-lo..." E desfila vários outros argumentos os quais não me vem à lembrança... Garfield já vai desistir quando aparece outro Garfieldzinho, este vermelho, enchifrado, segurando um tridente... Diz: "não o ouça, chutar o Odie lhe dará imenso prazer". Garfield pensa rápido "minha consciência deveria ser mais eloquente"... e manda Odie aos ares...

No ano passado, quando eu levantei a mão interrompendo uma aula que deveria ser não interrompível, pois é de mágica fluência (mas eu precisava realmente fazer a pergunta) indagando "Mas... professora Rosana, eu imaginava que RETÓRICA fosse algo ligado à significação de linguagem pomposa, exagerada ao conter elementos linguísticos rebuscados, enfim, 'enfeitada'". E ela, lamentando que não tivéssemos tempo dentro do quadro de aulas, o suficiente para um trabalho adequado com 'retórica', fez ao menos que percebêssemos (eu e mais alguns com compreensão equívoca) que ao contrário disso, era uma linguagem que prezava por uma realização comunicativa plena, pautada pela "beleza funcional", ou seja, o bem escrito necessário. Fiquei com sede de saber mais sobre retórica, estou inclusive com um livro de Perelman sobre o assunto. Ainda não comecei a lê-lo, como deveria (aliás, que maravilhoso seria uma optativa na UFMS, justamente com nossa preciosa Rosana Zanelatto, sobre o tema), mas creio que a explicação que tive é que me levou de volta a Voltaire, e de lá tirei alguns trechos, da abordagem final que o escritor faz sobre a existência dos quacres. Aliás, vale a pena ler Voltaire em todo, mil vezes, principalmente se é ligado à letras e jornalismo. Se não der, ler trechos esparsos dele, e não perder em hipótese alguma a explicação -implícita nos quacres- que ele dá sobre religião.

"Já percebestes que os quacres existem desde Jesus Cristo, primeiro quacre, segundo eles"; "Nessa época, três ou quatro seitas dilaceravam a Grã-Bretanha com guerras civis, empreendidadas em nome de Deus. Foi então que um tal de George Fox, do condado de Leicester, filho de um operário da seda, resolveu pregar como um verdadeiro apóstolo, isto é, sem saber ler nem escrever. Era um jovem de vinte e cinco anos e santamente louco"; "Vestia-se de couro da cabeça aos pés, indo de aldeia em aldeia a clamar contra a guerra e contra o clero... Levaram-no diante do juiz de paz, em Derby, Fox apresentou-se ao juiz mantendo seu gorro de couro sobre a cabeça. Um sargento deu-lhe uma bofetada, dizendo: "Patife, não sabes que é preciso descobrir-se diante do senhor juiz? Fox apresentou a outra face e pediu ao sargento que lhe desse mais uma bofetada, pelo amor de Deus. O juiz de Derby quis que prestasse juramento antes de ser interrogado: 'sabe meu amigo, -disse ao juiz- que nunca tomo em vão ao nome de Deus"; "Liberto da prisão, correu os campos com uma dúzia de prosélitos, pregando sempre contra o clero, chicoteado de tempos em tempos. Um dia, estando no pelourinho, arengou ao povo com tamanha força que converteu uns cinquenta ouvintes e pôs o restante a seu favor, sendo arrancado com tumulto do buraco onde se encontrava. Procurou-se o cura anglicano que condenara Fox ao suplício, e foi supliciado em seu lugar"; "...mas as perseguições só servem para fazer prosélitos: saíam das prisões fortalecidos em sua crença e seguidos pelos carcereiros que haviam convertido".

Nem Cromwell, conta Voltaire, com seu histórico poder de persuasão através do dinheiro, pode mudar a estrutura e direcionamento moral dos quacres. O nome quacres vem do significado "tremedores", pois estes, através de Fox, que teve uma inspiração divina que o levou a trabalhar o fôlego com retenções e liberações que davam medonho aspecto de caretas, falou sempre assim a partir de certo tempo. "O povinho divertia-se a arremedá-los. Tremia-se, falava-se pelo nariz, tinha-se convulsões, acreditava-se ter o Espírito Santo. Careciam de alguns milagres - e os fizeram. O Patriarca Fox disse publicamente a um juiz de paz, na presença de uma grande assembléia: 'Amigo, cuida-te, Deus logo te punirá por perseguires santos'. O juiz era um bêbado que tomava diariamente má cerveja e aguardente. Morreu de apoplexia dois dias depois, justamente ao acabar de assinar uma ordem de prisão contra alguns quacres. A morte súbita não foi atribuída à intemperança do juiz: foi encarada por todo mundo como um efeito das predições do santo homem. Essa morte fez mais quacres que mil sermões e convulsões poderiam fazer.

"Sob o reino de Carlos II foram perseguidos algumas vezes, mas não por motivos religiosos, e sim porque se recusavam a pagar o dízimo ao clero e a prestar os juramentos prescritos pela lei, e porque tuteavam os magistrados".

O que de mais surpreendente encontro no relato de Voltaire, além da linguagem, que creio, possa ser um exemplo parcial da explicação sobre retórica, sobre a qual alertou Zanelatto (em 2008, sala de aula, Letras-2010, UFMS), é que um sujeito chamado Barclay, como relata o autor do Dicionário Filosófico e outros, de origem ordinária, tenha conseguido, através de linguagem tão objetiva quanto pede uma carta de comum a monarca, o que nenhuma outra tentativa pessoal ou institucional tenha conseguido:

"Enfim, Robert Barclay, escocês, em 1675 apresentou ao rei sua 'Apologia dos Quacres', obra tão boa quanto poderia ser. A epístola dedicatória a Carlos II não contém baixas adulações, mas verdades ousadas e conselhos justos.

"Fruíste', diz a Carlos II no final da epístola, 'a doçura e a amarguara da prosperidade e das grandes infelicidades; foste expulso dos países onde reinas, sentiste o peso da opressão e deves saber quão detestável é o opressor diante de Deus e diante dos homens. Se, depois de tantas provações e bênçãos, teu coração se endurecesse e esquecesse o Deus que se lembrou de ti em tuas desgraças, teu crime seria maior e tua condenação mais terrível. Em vez de escutares os aduladores de tua corte, escuta a voz de tua consciência, que nunca te adulará. Sou teu amigo fiel e teu súdito. Barclay." "O mais surpreendente é que essa carta, escrita a um rei por um particular obscuro, teve seus efeitos e a perseguição cessou".

Observação. Os trechos entre aspas duplas ou simples são literalmente de Voltaire, através de sua tradutora.

REFERÊNCIA: VOLTAIRE, François-Marie Arouet. Cartas Inglesas ou Cartas Filosóficas. Tradução de Marilena de Souza Chauí Berlinck. Coleção Os Pensadores, Editora Abril Cultural, 1973.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

SHAKESPEARE É INCÔMODO PARA A MEDIOCRIDADE

FONTE: etc.usf.edu
FONTE: www.apparitionfilm.com

FONTE: bitaites.org

FONTE: www.blogtalkradio.com/pics/hostpics/9352e3a8-...

FONTE: www.allposters.com

FONTE: www.sirianniart.com

FONTE: destinoscruzados.wordpress.com

Não sei muito de Shakespeare, mas pouco a pouco, através de Bloom (do qual não desisto por conselho algum) ou massiva abordagem em todo o mundo, em todos os tempos, vou sabendo dele, do “Bardo”, mais que ontem...Porque a alguns ele incomoda tanto? Porque a insistência em atacar Shakespeare e negar dele as obras e mesmo a existência? Não tenho lastro para uma discussão desse tamanho, mas sinto-me orgulhoso pelo fato de que de alguma forma isso tudo me causa inquietude e não o caminho para o mesmo, ou caminho para as bobagens das oito; ou um desvio para a retaguarda."Não sejais fracos, tampouco, mas deixai que o vosso critério seja o vosso mestre. Ajustais o gesto à palavra, a palavra à ação; com esta observância especial , que não sobrepujeis a moderação natural. Pois qualquer coisa exagerada foge ao propósito da representação, cujo fim, tanto no princípio como agora, era e é oferecer como se fosse um espelho à natureza, mostrar à virtude seus próprios traços, ao ridículo sua própria imagem, e à própria idade e ao corpo dos tempos sua forma e aparência. Ora, o exagero, como a deficiência, conquanto façam rir os incompetentes, não podem causar senão desgosto ao criterioso, e a censura deste deve constituir na vossa estima mais do que um teatro lotado pelos outros". Essa frase de Shakespeare, é dada por Hamlet, quando, articulando um plano para desmascarar o tio assassino e conferir se ele realmente matou seu pai, recomenda procedimentos a atores que farão uma peça dentro da peça. Coisa já brilhantemente explicada , com outros autores e outra literatura mais linguisticamente próxima a nós, através de aulas de Literatura Portuguesa da professora Rosana Zanellato.Vez ou outra o Rone, amigo bastante criterioso, principalmente no tocante às performances musicais (para mim ele representa eu ter aprendido a gostar, e muito, de Pink Floyd) toca no assunto da qualidade artística. Há quem torça nariz, chame o critério de radicalismo ou parcialidade. Eu já o contrariei algumas vezes e na maioria, ao final, tive que rever o que colocara a respeito. Ele não se move por pretensões quanto à crítica, nada disso espera, mas é taxativo “tem o bom, e tem a porcaria, são resultados da busca de cada um, preguiçoso ou virtuoso, creio que seja raro, não me lembro de algum, um trabalho artístico que tenha sido ruim, se os critérios em todas as etapas foram de excelência”. E diz mais “cada um com seu cada um”... rsss
Mas existem leitores tão poderosos, de quadros, peças, músicas, que conseguem “traduzir” trabalhos medíocres e endossá-los, sujeitos fantásticos que conseguem ter um ecletismo que tempera para o concílio e para a melhor das funções da arte o resultado de qualquer apreciação. Invejando tais sujeitos, digo que sou obrigado a ficar mais com Bloom, Shakespeare e o Rone, cada um com seu cada um e eu com o Renato e com Saramago, “Quem me dera ao menos uma vez acreditar...”; “e seus olhos eram como um rio sobre o outro” (Índios; Evangelho Segundo Jesus Cristo); e Pink Floyd... “Então, então você acha que consegue distinguir o céu do inferno, céus azuis da dor? Você consegue distinguir um campo verde do aço?”... Sabe, eu não sei direito o que Shakespeare, Gilmor, Rone, Saramago querem dizer, mas sei exatamente o que certos “artistas” falastrões, que falam em macarronada e cerveja barata mas bebem vinho e comem, sim, caviar e beijam a bunda de quem dizem criticar, dizem: NADA. Há mais coisas entre a vontade de reinventar a qualidade e quantidade na produção artística e o nada, do que desconfia nossa vã nova crítica. Mas, sinceramente, benditos sejam os raros abençoados que transformam água em vinho, deles é o reino misterioso da paz na arte, dos silenciosos pilares que sustentam no final a possibilidade da discussão... O poder do limão é Amarelo... Blog, blog, blog.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

"VIVA LA MEDIOCRIDADE NO, VIVA LA VIDA" (Ela)

FONTE: eden-san.blogspot.com
FONTE: periodismodefrente.com

FONTE: robertaar.wordpress.com

FONTE: www.lastcity.com

FONTE: fabricarica.2it.com.br

A proximidade da morte já é para mim uma realidade. Sinto a mudança de qualidade em meu corpo, o abandono da vitalidade. Mentiria se negasse relâmpagos de temor frente à escuridão que vai se aproximando, e frente às possibilidades de velhice, de fato. Ainda mais percebendo um novo ciclo de grande mediocridade no mundo. Não obstante quando ia já escrever aqui sobre o agravamento da mesquinhez em tempos de crises, lembrei que também aumentam os níveis de camaradagem, de bondade em casos positivos... Equilíbrio. Em literatura, em arte enfim, isso fica ótimo. Bem, quanto ao meu estado de velhice. Quanto às preocupações, viso principalmente a ancoragem do futuro filial, quero meu filho bem, isso é claro e óbvio. E depois os rastros que deixarei no tocante à escrita. Quanto ao positivo, fico feliz em pensar que ao menos a morte é implacavelmente justa no que se refere ao comunismo. Ela sim, não dá concessões, vai todo mundo pro pau mesmo, sua foice, essa sim é equitativa. E muito mais, posso, talvez, escrever umas coisas ainda, talvez vários romances; espero que sim, antes de morrer.


Entre as pessoas que mais respeito de fato, está alguém de quem tenho sincera inveja no dom (e ela odeia isso, de dom, rsss) de ensinar, de dar aulas, e outros. Ela consegue apanhar todas as perguntas acadêmicas no ar e, harmonicamente, transformá-las na resposta que de fato quer dar, na matéria que realmente quer dar; e quando acrescida de multidisciplinaridade ou da obrigatoriedade que se impõe de não ofender mesmo aos que fazem as perguntas mais simplórias, ou mesmo estapafurdias ou tolas mesmo, o resultado é sempre grandioso.
Está na Bíblia que se Wagner decepcionou Nietzsche entre os deuses-homens, correria eu também risco de me decepcionar com ela. Mas aposto que não, ela é uma exceção, de fato, e creio que eu, de certa forma (risquem a empáfia, não é o caso) também. Há consciência muito forte, a cada maneira num e noutro, de que nada é perfeito, e gostar implica essencialmente nisso, ou tudo é falso.


Esta pessoa, de duas letras tês no nome e não duas letras eles, disse: "no viva la mediocridade, Jorge", e disse: Viva la vida, viva los hombres y suas maneras de vivir! La mediocridad, no!
Ou, como escreve Elias Canetti: "Há poucos males que eu não possa atribuir ao homem e à humanidade. E, mesmo assim, meu orgulho por ambos é tão grande, que só sinto verdadeiro ódio de uma coisa: seu inimigo, a morte".


Não quero adoecer, sendo um ateu fajutão, oro, peço coisas a um deus híbrido entre o que de pouco e bom há no cerne das religiões ancestrais e o que desconfio que seja, algo não muito diferente de sua letra, a natureza. Mas, as doenças do avanço da idade são muitas vezes irremediáveis, e porque eu não me calar um pouco sobre elas? Pois serão inexoráveis a todos... E a morte, bem, concordo com o aceno de minha mestra, sou inimigo dela, pois cala, e tudo que nos cala, de todo bom não pode ser...


Como aponta através de uma voz escolhida, minha eterna professora, o homem faz em si e a outros o mal, a humanidade é um desalento muitas vezes, mas sou eu, é a vida, com todos os complexos e belos significados que tem... Com explosões incríveis de prazer... Como a que tive ao abrir um email "rzanel"... Puxa!!! É um prêmio e tanto, verificar que alguém de olhos tão grandes e agudos, e com sinceridade desconcertante, nos viu, vê, e aprova os passos evolutivos...


Ela não chegou tão próxima da unanimidade dos acadêmicos em favor de sua qualidade pessoal e profissional à toa, e olha que ela bate, alguns não sentem, enebriados em pobre ser e destino, mas olhamos e sabemos o quão é ótimo saber que alguém sabe muito mais, e vê, e não aprova... E o quão ótima é uma fonte crítica para todos que querem realmente sair da mediocridade, mesmo que não consigam. Penso eu, em meu caso, que talvez fuja através da própria tentativa, não houver frutos... E só isso já me apraz... nisso me comprazo.


Obrigado, pessoa maravilhosa, obrigado!!!


Peço desculpas aos amigos por hoje ter sido tão eu na blogada, mas, Chico Anysio, contudo, dizia "mas, quem não é?"... E eu e todos! Blog... blog... blog. Obrigado aos que aqui vêm, vocês são sinceramente tudo para mim! Até o fim, o que me importará realmente é que alguém sempre me leia. Obrigado, obrigado, obrigado, mesmo :o) !!!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

!ESTOY DE VOLTA! VIVA!!! VIVA LA MEDIOCRIDAD!!!

FONTE: www.ccs.neu.edu
FONTE: www.jangadabrasil.com.br

FONTE: kaliblog.blogspot.com


FONTE: diasquevoam.blogspot.com

FONTE: baixaki.ig.com.br

FONTE: evelynha-linda.blog.uol.com.br

FONTE: evelynha-linda.blog.uol.com.br

Aprendi a maioria das coisas espirituais mais elevadas (observação, aqui, “mais elevadas” dá quantificação interna, ou seja, mais elevada comparando-se partes do meu saber umas com as outras e não com saberes alheios) por um dos favores das fugas que eu empreendia de mazelas variadas; das quais não se convém falar agora, aliás, Freud talvez já tenha falado o suficiente, genericamente, que seja. Encontrava guarida em Tio Patinhas, fotonovelas patéticas, bolsilivros (bangs-bangs e erotismo barato)... Fugia da dificuldade em que esbarrava sobre o que Montaigne diz que é a mais importante das coisas da vida, “viver”. Minha infância foi entre miserável e quase miserável e a fantasia se apresentou com a proposta de me socorrer a mente até certo ponto, e foi amorosamente aceita; substituiu objetos que a ingenuidade da natureza não percebia ausência. Quando procuro relembrar meus choros, tenho dificuldades e imagino que eles, como tantas outras coisas, sofreram bloqueio por um remédio que ainda desconheço quase que totalmente. Mas recordo muitas lágrimas, com tanta vivacidade que parecem me retornar, quentes, riscando o rosto. Crianças que vivem a vida que eu e meu irmão vivemos, são sobreviventes de um mundo ainda muito aquém da tentativa de ser realmente pensante, um mundo que insiste em não perceber as verdadeiras possibilidades da verdade e da fraternidade. Claro que sei que vivi vida de príncipe se nos compararmos a outras famílias, algumas etíopes, por exemplo, ou de outros cantos da África e Ásia, e milhares mesmo de meu país, estado, ou município. O escuro trazido pelos tortos que pregam a retidão moral cheirou mal para mim muito cedo. Apesar de eu ser uma criança facilmente tapeável - até os dias de hoje - em assuntos práticos e específicos, o todo do mundo, o ver, ser, estar total, geralzão, universal, era coisa meio complicada de me convencerem que era assim e tal. Logicamente há exceções; como contei, só tardiamente a Gilse e seu irmão certo dia me fizeram perceber que o Papai Noel existia, sim, mas não para nós, e que isso de fazer listas “para pôr na meia” é que dava aquela carranca aos nossos impotentes e amargurados pais nos períodos natalinos. A minha inteligência era acima da média da maioria de minha turma de colegas no primário, e creio, sinceramente, que justamente meu constante estado fantasioso é que dava essa condição, além do impulso que meus pais davam, a cobrança... Mas comecei a ser ultrapassado em resultados no período de quinta a oitava série, e fui dominado pelas idéias prontas no ambiente escolar, ao ponto de certa feita rirem por eu utilizar a palavra “estadunidense” (que hoje é moda adequada) - e a professora me corrigiu para o “norte-americano”, sob o eco dos risos aos quais me pareceu não somente complacente como cúmplice; mesmo comigo ostentando o velho livro onde me baseara - e eu aceitar o caso de o próprio livro de história estar “errado”. No tocante à arte, certa vez cravei um coração azul numa águia estilizada e me empenhei ao máximo para explicar que aquilo tinha um significado mais importante que a má qualidade das linhas... tudo inútil. Mas a resistência ficava lá no fundo que nem o Smeagal “eles não entende minha arte, eles não percebe que quero criar”. Da quinta à oitava série fui apaixonado por uma Simone que hoje mora em Coxim-MS. Ela não tem a mínima idéia que bisbilhoto seu orkut, vez ou outra, e sinto sincero prazer em vê-la feliz. Se por um lado ela me ajudava a criar asas, por outro fazia-me perceber da maneira mais cruel a sutileza das sub-castas, eu era de uma sub, sub, sub, sub casta, e ela de uma boa casta. Ensimesmei-me ainda mais na ficção e nas visitas interplanetárias ao perceber minha exclusão do círculo que me interessava participar. Lembro-me até hoje do olhar cínico e cruel de uma garota quando fui impedido de participar do desfile de 7 de setembro porque o tom de minha calça de uniforme era despadronizado. Vários eventos parecidos, mais fuga, mais arte. Isso e outras coisas que estenderão demais o dizer bloguiano me levaram um dia a acreditar que eu poderia ser um cara diferenciado na arte. Um sujeito destacado, dono de obras geniais. Felizmente percebi a tempo a bobagem que isso seria para mim. Percebi o potencial da mediocridade, e mais, e muito mais valoroso, a liberdade que a mediocridade pode nos dar, se a assumirmos. Vejam Somerset, ele fez isso. Vejo pequenos gênios e acho-os insuportáveis, vejo novos dândis da arte misturando demagogia com rancor e empáfia; e o tédio é pouca coisa se comparado ao que sinto. Como não consigo deixar a arte, a farei sem muita pressa, sem muito compromisso. A não ser, é claro, nos casos de contratos promissores... É, creio que neste caso poderia ser o novo Shakespeare... “Vocês estão aí?”... Fora disto, prometo apenas ser o máximo que pode ser uma tartaruga voadora, e jamais perseguir a genialidade, se não houver justa conveniência. Pois, seria certamente a ruína do pouco que restou em mim após o vendaval de 1997. “2009, viva la mediocridad”.