CAMPO DOS GUAICURUS

CAMPO DOS GUAICURUS

sábado, 27 de dezembro de 2008

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO E O VÉU PINTADO

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Às vezes, quando penso em reclamar da idade que não é satisfatória, da impossibilidade de haver um botão mágico que me faça retornar aos vinte anos, penso também o quanto a vida pode ser entediante. Mas, por enquanto, apesar de o tédio ser um ataque constante, é o inimigo que derroto mais facilmente, até com uma boa masturbação o ponho à nocaute, ou com uma Heineken. Falando em masturbação, estou com 45 anos de idade e não tenho o mínimo de uma idéia bem embasada sobre a masturbação feminina. Comento isso porque em blog escrevemos de tudo e para todos, e fico pensando, qual o efeito na cabeça de uma mulher comum ao “ouvir” a palavra masturbação. Acho que Deus é mesmo o bam-bam-bam, e sabe certinho que temos que bater as botas; porque a vida é belíssima, fantástica, mas chega a seu tempo. Temos que ser julgados, perdoados, ou passar uma temporada com os diabos e passar pra outra etapa de sensibilidade. Porque tem hora que não dá pra agüentar mais nada do mesmo. Tem horas que ouvir e ver é um porre. Ainda mais que a falsidade necessária ao cotidiano é indesviável “bom dia!” (putz, que vontade de esganá-la, essa falsa...). Bem, Somerset Maugham nasceu para escrever. E nasceu para escrever a coisa mais gostosa que existe na literatura, um bom romance. Escrever bons romances não é fazer bolinho de chuva. Que o diga Sartre, dono de uma mente fantástica, e que respirou livros desde a infância “desconfio do poder que existe nisso” (ele não sabia ler ainda, mas fingia ler, com livro ao colo) e escreveu tanto e de forma tão complexa que até hoje não o entendem bem, mas não escreveu romances, propriamente ditos. Num artigo após sua morte, Paulo Francis nota que ele morreu esquivo, misterioso em suas coisas, mesmo tendo sido tão atuante e virulento naquilo que pensava. Um dia, influenciado por minha lenga, um grande amigo, Gustavo, que hoje está em Londrina, baita sujeito, com o grave defeito de ser corintiano (ninguém é perfeito), inteligente e inclinado à cultura geral, resolveu ler Sartre. Acho que começou pelo “O ser e o nada” e me relatou a experiência “Jorge, li um pouco, joguei o livro em uma das paredes e firmei ‘jamais leio esse cara novamente’”. Há críticos não cerimoniosos que simplesmente apontam que entre os grandes escritores Sartre escreveu os piores romances “existentes”. Maurice Blanchot o resgata num trabalho chamado “A parte do fogo”, mas Blanchot é capaz do que quiser em crítica literária. E Somerset, já falei dele em blogada anterior, é, sim, mestre romanceiro. Em “O fio da navalha”, para mim escreve a história que poderia ser a única que escreveu e seu nome deveria ecoar por todo o universo com outra palavra coladinha “romancista”... Ele nos mostra um sujeito que resolve buscar Deus, chama a noiva linda para ir junto, ela não vai, ele a deixa e parte... Ele já começara a busca em horas infindáveis na biblioteca, onde pega pistas... E olha, ele encontra Deus. E não pensem em bobagens carolas, é outra coisa que ele encontra; quem leu o livro sabe, quem não leu, tenha uma boa notícia, qualquer dos sebos careiros de Campo Grande-MS apresenta-o sem saber realmente o quanto vale, nessas edições tipo Júlia. Mas, após a traição conjugal clássica que sofri (olha, aí a palavra é perfeita), li com muita dor um livro de Maugham chamado “Véu Pintado”. Mário Puzo trata cirurgicamente em “Os tolos morrem antes” de como o cinema lida, às vezes, porcamente com os escritores, lhes tomando sangue suor e lágrimas para transformar em porcaria e dólares. E há nisso reflexos de uma indignação coletiva entre escritores e leitores. Sendo assim, é coisa feia quando pegam um escrito e transformam numa merda de filme. Amo o cinema, amo talvez tanto quanto a literatura, às vezes... Mas, o cinema sabe esculhambar a escrita quando quer, e se fazer de inocente... Então, mas com “O véu pintado”. Foi assim, CARAMBA!!!!!! O FILME É UM SHOW!!! Se Maugham pudesse verificar o que fizeram, aprovaria... Eu o assisti com vários medos, desde o temor de me decepcionar novamente com versões de grandes obras até o medo de reviver a dor que senti ao identificar a traição artística com minha dor real... Sentir que sim, você perdeu para um sujeito só não tolo no tocante a encantar “teu” amor... Perder é parte constante da natureza humana, ser derrotado e reagir modo à poesia “Ser capaz” de Kipling (está via Google em mil cantos da internet) , e perder para grandes, não dói tanto; como diz Lúcifer (na obra "O Diabo", de Geovanni Papini) ao diabo que o repreende “Mestre, estás aí a escutar hinos, furtivamente, justamente cantados para aquele que te derrotou?”. “Tolo, -responde- não sabes que o destino do derrotado é para sempre ligado ao vencedor, quando se trata de uma grande batalha? Ah se eu soubesse que tipo de prosélitos teria ao empreender luta contra Deus...”. Pois bem, perder para grandes pode ser até uma honra... Mas, putz... Bem, voltando para o filme. Edward Norton, como sempre, é um espetáculo dramatúrgico à parte, como também o é a atuação apaixonante de Naomi Watts (aquela de King Kong). Olha, eu não esperava tanta competência, não esperava que fizessem não somente jus a Maugham, mas se superassem em tempos de cinema tão comercial. Creio que vendo o filme podemos sentir que entendemos realmente algo que jamais conseguiram explicar direito, o amor conjugal. Entendemos o quanto há desconcerto escondido na arrogância da linguagem escrita, incapaz de sozinha dar cabo de um conto em todas suas possibilidades. Maugham escreveu algo fantástico e eu pensei à época “só em romance escrito”, pois bem, vem o cinema e... bem, vejam o filme, que tem outro nome, e acho que muitos que lerem o blog já o assistiram. Meu filho, jovem de 17 anos o assistiu e, inclinado muito mais à aventura e outros gêneros mais de ação, ficou de boca aberta, gostou mesmo. Mas, aconselho, assistam novamente... e mais de uma vez... “O despertar de uma paixão”... Eu acredito que aquilo existe, e acredito que não esteve tal capacidade, infelizmente, ao meu alcance... A maneira como ele pode amá-la... uma vez, duas vezes... “O despertar de uma paixão”, “O véu pintado”... Maugham... fez medicina, mas nem quis saber, pois aos quinze anos uma angústia lhe dizia, escreva histórias, escreva romances, opere almas e não a carne... Felizmente ele ouviu sua angústia. Neste endereço o Wikipédia honra a angústia maughamniana com um pequeno aperitivo sobre o autor, http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Somerset_Maugham. Vale, mas, o filme é “outra história”...

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