CAMPO DOS GUAICURUS

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sexta-feira, 25 de abril de 2008

CASO ISABELA





Todos estão falando sobre isso. Porque hoje, o "todos" é televisão. E televisão é show, até a fé, (gosto de pensar o que Jesus Cristo Real diria sobre isso) dá show, e vende de tudo, na TV. Então, os poetas (estou falando de certo tipo de poetas, não dos bordadeiras de plantão, falo de poetas que ficam com sangue da melancolia em constante queima), na maioria tem silenciado. Isso me recorda Montaigne, no início de seu livro Pensamentos (na verdade uma bíblia que sangra), conta a história de dois reis, um que venceu, e outro desastrosamente derrotado... O vitorioso observa atentamente o derrotado olhando os atos e fatos, saldos funestos da guerra. A filha do derrotado passa-lhe a frente, na condição de escrava, indo buscar água em pesados cântaros, em seguida lhe passa o filho a frente, indo para a execução... Às duas situações, o rei nem se mexe, olha impassível. Mas, ao passar um seu antigo funcionário para ser flagelado e morto, ele demonstra grande desespero. O rei vitorioso não se contém e vem indagar sobre a questão, ao que responde o outro: "As duas primeiras dores são inexprimíveis"... Ver o espetáculo sobre "a questão Isabela", danifica em grande parte o que deveríamos ter de uma alma conjunta... Quantas Isabelas existem? Quantas pobrezinhas de bairros paupérrimos, ou mesmo de "média baixa", já sofreram de tantos outros tipos de inferno sob o silêncio midiático? Mas, isso virou fichinha e é algo que ganha da questão "ovo ou galinha primeiro?"... O que é estranho, é ver um sujeito de óculos, todo sorridente (mesmo), todo doutor, dizer: "veja bem, fulano" (a um desses entrevistadores semi-descartáveis)... Sorrindo, como se tratasse da coisa mais banal do mundo, e não do assassinato brutal de uma criança. Participante de um show de abutres, e de um infernal jogo vindo de emaranhado legal e decisões jurídicas... Gostaria de saber como seria essa questão em alguns países e suas justiças. E não estou falando de justiça como órgão...
Bem, os poetas estão em silêncio, não todos, alguns mais chinfrins como eu, abrem a boca... Pouco, comedidamente, mas abrem. E dentro de nós, poetas... Não só por Isabela, mas por Isabelas mortas e vivas (sob lenta tortura), choramos o choro de Montaigne... E por que não torcer por justiça? Torcer (bastante desconfiado) para que haja um desfecho exemplar... Em que você acredita?

Um comentário:

Gutemberg disse...

Estou gostando de ver esse teu blog, maninho.
A expressão através das palavras não é tarefa fácil, pois ela pode ser como caminhos em cavernas, onde o leitor pode seguir distintos rumos da compreensão.
Fico feliz de ver que tem escrito... Pois só quem bastante lê, consegue escrever com maior destreza. E isso sei que você faz muito bem.
Grande abraço.
Guto.