CAMPO DOS GUAICURUS

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quarta-feira, 19 de março de 2008

EU E MIM OLHO.





Por que não olharia para mim mesmo e para mim próprio não escreveria? Faço isso o tempo todo, com papel cinzento e necessariamente confuso... Tudo mora, nasce e nunca morre, ou dorme de forma estranha, neste átrio da cor das manhãs escocesas. A ausência de amor torna de uma doce aridez a casa do poeta... E os meteoros caem, sulcando com a redondez de seus beijos brutais o chão do átrio que nem se importa ou se importa... na realidade é o chão do "Sou"... Este pão, que eu mesmo amasso e cozinho no fundo do chão solitário, próprio da natureza descrita entre os reis que visitam Cristo em Saramago, eu o entrego sempre, mesmo que de sua junção de grãos e de sua fermentação ninguém muito aproveite na hora, um dia a fome será recompensada... A fome dele, do pão, em comer as bocas alheias espalhadas pela miserabilidade do que chamam mundo... Aqui, sendo por esse átrio, empresto dele as razões absurdas da sobrevivência sempiterna...


Defensor fiel da melancolia, gosto no momento da morte, quando zombamos da turma da auto-ajuda que acha que a vida é de alegrias mornas e ois tão fingidos que doem... Em 1956, faltavam 7 anos para eu nascer, e Ângela Maria cantou, falou em sonhos, recordações, amor, "em nome do amor", em "nós dois"... suspendeu o Adeus... há um adeus que chega e não dá pra deixar para depois, ele me incomoda, mas me fascina, pois se não é o inimigo que mais nos fascina quando não há terror... Se fumasse, pediria um último cigarro, como não fumo, pedirei um último beijo na boca, de um anjo, nem que tenha que pagar 150 pratas, que é o valor médio de 2008... 150 pratas por um beijo falso, na despedida do farsante que mais intimamente conheci... A luz do cabaré, já se apagou em mim, o tango na vitrola, também chegou ao fim... parece me dizer, que a noite envelheceu, que é hora de chorar e de dizer... adeus...

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