CAMPO DOS GUAICURUS

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

AMO AS PALAVRAS







Sabe, cada um toma suas decisões quanto às questões essenciais. Recuso-me a aceitar como essencial o dinheiro. Considero o dinheiro um elemento da natureza do homem, uma prova cabível de que a religião, com tantos erros, acerta muita coisa: “ganharás o pão com o suor do teu rosto”. E Raymond Aron, um sociólogo, tão poderoso que nublou muitos momentos de Sartre, já colocou que o dinheiro pode ser, por excelência, o mais democrático dos objetos. Há um ponto de vista de que o dinheiro tem o mesmo valor na mão de quem quer que seja...
“As palavras” são o essencialidade número 1 para mim. Falá-las, escrevê-las, evoca arte, fênix abençoada que persigo; e os tolos, homens idiotas vestidos de sábios, morrem defendendo muitas vezes o pior que as palavras têm, sua capacidade de aprisionar. É aceitável que um tirano use as palavras para dissimular ignóbeis intentos e agredir a liberdade sob mil disfarces, que um dia caem. É aceitável ver que o político as usa para mentir, porque a política é quase toda ela uma mentira ("a mentira é a base da sociedade" -Renny, em "Declínio do Império Americano"), seja boa ou ruim. Mas, é ruim demais ver alguém que se serve profissionalmente das palavras ou que a elas jura vida, utilizando-as para envenenar a alma e afastar as chances de todos poderem delas se servir com maior abundância... Explicar isso? Transformar regras em estorvos e não em conduto. Transformar em falso poder o domínio enciclopédico, cognitivo ou interpretativo. As regras não deveriam emperrar o entendimento das coisas, pelo contrário, são destinadas a impedir a confusão... E devem vir suaves, como se todos tivessem 5 anos de idade, sempre... Devem vir lentamente, como explica Exupery, devem ser repetidas quantas vezes for necessário. Logicamente, sei que isso que falo é tão inútil quanto mandar lembranças para quem não se conhece... Mas, são palavras que considero essenciais entre eu e mim.
Sei que sou verdade quando estou profundamente amargo,
Sei que sou verdade quando estou profundamente triste,
Sei que sou extremamente feliz quando redescubro que a grande piada é que amor, amizade, felicidade, esses pássaros que perseguimos implacavelmente não existem, a não ser sob provas intensas...
Sei que preciso da tristeza, da profunda solidão, da amargura, da revolta contra os fatos para me sentir vivo. Quando eu os aceitar bobamente, terei morrido.
Morte, fato natural e irreversível. O modo de encará-la muda conforme a coragem ou a covardia, muda conforme as religiões ou ausência delas. E religiões são infernais plásticos, internos e externos, que começam seu estranho molde já individualmente, e infelizmente, dado a nossa covardia comum frente à morte, quanto mais velhos, mais propensos às religiões somos...
O homem é tão covarde que é capaz de inventar um diabo para lhe carregar os desastres de má consciência, então por que não o seria na hora da morte. Os joelhos se esfolam mais, conforme se envelhece...
Espero suavizar o cinismo que lentamente assume seu posto em minha natureza. Pretendo, a partir de agora, me preparar para a morte e para a vida que posso ter com a proximidade dela.
Vivi intensamente até ser aprisionado pelos meus contra-atos sociais. Ali na prisão, morri. E tive uma chance de renascer. E renascido, ainda à meia construção, vejo minha antiga natureza de paixões carnais, amores, “bom dia vizinhos” virem me atormentar muitas vezes... Mas no meu interior eu reajo. Externamente não há como me transformar em Casmurro, não consigo. Vejo a beleza de minhas amigas, meus amigos, seus atos todos, e não posso ficar imune ao perfume dos jasmins, cravos, rosas, gerânios... E à dança das folhas no vento noturno ou sob as asas solares. Mas em meu interior, na devastada planície de meu universo mental, vou construindo lentamente os castelos azuis e negros de minha gloriosa morte.
Peço que meu Deus, a Natureza, não me mate antes dos setenta anos, acho que até lá terei construído sobre minha morte, a minha vida, sobre a minha vida, a minha morte.

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