CAMPO DOS GUAICURUS

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O FANTASMA DE SARTRE



O fantasma de Sartre me persegue, e acho, sinceramente, que não terei como me livrar dele até o final de minha vida. 

E por que ele me incomoda, me persegue? Por que muitos que resolvem seguir a carreira de literatos, mesmo os mais modestos, pequenos como eu, são incomodados, perseguidos por Sartre? Por que ele faz isso? Talvez porque queira nos ver expostos, queira que melhoremos a sociedade de forma corajosa, firmemente apontando onde falta ética, onde está a podridão e dando nomes... Talvez porque ele, mesmo tendo morrido cansado, e alguns dizem, desiludido com “as palavras” e a força que ele julgou em certo tempo que elas poderiam ter, trabalhou no propósito de melhorar o mundo através da força de sua escrita e do acesso a portas que essa escrita lhe abriu, mesmo com grandes erros, como distribuir panfletos pró-Mao, afinal, isso “faz parte”... 

Olhando  em um noticiário o deboche de criminosos que roubaram milhões através de golpes pela internet, olhando o escárnio deles perante uma Justiça que certamente julgam uma piada, para fazerem aquele show de “iuhuuu, isso é um BBB” ao serem flagrados e presos numa operação da PF; e olhando um grupo de deputados pleiteando mais dinheiro para suas contas pessoais, dá-me uma vontade danada de escrever na linha sartreana. Mas, aí me pergunto muitas coisas, entre elas sobre o estigma que, de maneira inexorável, carrego e que faz com que meu pé tenha o famoso calcanhar de vidro. Pergunto também sobre os efeitos, sim porque vejo profissionais fortes em determinadas revistas, “gritando”, sobre os exemplos positivos dos países que enfrentaram problemas exatamente iguais aos nossos e estão vencendo. Também observo esses mesmos jornalistas, e outros, de outros veículos não menos respeitáveis, apontar com precisão quem são os bandidos, os ladrões, os corruptos e apontar, através de dicas de cientistas e especialistas, quais os rumos certos... Tudo isso para ver como resposta um silêncio solene, do lado de quem deveria agir e não apenas silenciar ou vir com os velhos contos para criança dormir. 

Pois as notícias vão se repetindo, repetindo; a violência, os crimes, os roubos que fazem Ali Babá parecer escoteiro roubando merenda alheia... E eu penso... Arte... Prefiro a arte. Melhor criar um gambá chamado “XYZ” e sobre ele descarregar uma intensa fúria porque o bicho furtou por baixo da tela de um galinheiro mal arquitetado, uns três ou quatro frangos, e ali próximo mesmo, os assassinou impiedosamente, os devorando sem muita cerimônia, com pena e tudo. Mas, com o que tem restado no meu coração para que eu acredite em fantasmas, em especial no de Sartre, e acredite em alguns cacos estranhos que junto e chamo de Deus, peço: “Acontecei um milagre, que dono dele seja qualquer deus que o queira assumir, não importa que seja um obscuro deus de alguma tribo que nem comida ou saúde tem conseguido, mas de repente desperte tal pequeno deus para um milagre... Ou que seja um poderoso deus que tem milhões de sacerdotes e seus milhões... de fiéis. Não importa quem seja o dono do milagre, o que importa é que ele venha, que aconteça. 

Que se abra ao mesmo tempo o cérebro fétido de quem anda em falta com as grandes vestimentas profissionais, para que seja arejado pela verdade e pela inteligência, pois verá que o dinheiro roubado não o protegerá e a seus filhos de nada, e não os farão felizes; o coração que só tem trabalhado para o cinismo para que se inunde não só de caridade mas de coragem para enfrentar o mal que tem rostos, contas bancárias e diplomas. Um milagre, nem que seja Papai Noel que o faça, um milagre que movimente todos os poderosos e profissionais para salvar o mundo que se vê roído sistemática e, há muito, já não mais lentamente, pela estultice e ganância. 

Ficarei na arte, sou covarde demais para ouvir Sartre. Prefiro jogar sal atrás das portas para que ele suma e esperar um milagre. Quem sabe os jornalistas que ouvem Sartre e implacavelmente escrevem sob minha inveja, consigam algo... ficarei assistindo, enquanto preparo um medíocre soneto em meu pequeno bunker. Depois de descobrir certim certim, o que é mesmo um soneto... E se bunker se escreve assim mesmo... Lidar com escrita é estar constantemente perdido de si e de todas as coisas... Seguimos!

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